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O pão de massa mãe não é questão de moda e continua a fazer sentido

“O pão de massa mãe não é questão de moda e continua a fazer sentido”
Elisabete Ferreira, que em 2024 foi distinguida como a Melhor Padeira do Mundo pela União Internacional de Panificação e Pastelaria, é a nova embaixadora da padaria do Continente. Em entrevista ao Lifestyle ao Minuto, falou deste desafio, de como o pão é visto atualmente pelo consumidor e do que é importante valorizar.
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21/08/2026 08:41 ‧ há 1 semana por Adriano Guerreiro
Elisabete Ferreira entrou para a história ao ser a primeira mulher e a primeira portuguesa a ganhar o título da União Internacional de Panificação e Pastelaria de Melhor Padeira do Mundo. Estávamos em 2024 e a distinção fê-la sentir um “enorme orgulho”. Mais recentemente assumiu o papel de embaixadora da padaria do Continente, com quem já trabalhava há mais de 30 anos ao fornecer produtos da Pão de Gimonde.
Há quem considere este tipo de pão uma moda que irá passar, mas é algo em que a Melhor Padeira do Mundo não acredita.
“Muitas pessoas estranham na primeira prova, mas, quando o consomem com alguma regularidade, passam a apreciar a sua complexidade. Não é uma questão de moda, é uma forma tradicional de fazer pão que continua a fazer sentido nos dias de hoje.”
O Lifestyle ao Minuto falou também com Catarina Simões, diretora de padaria e pastelaria do Continente, para perceber como foi feita a escolha de Elisabete Ferreira para este cargo de embaixadora.
“Nesta que é A Padaria de Toda a Gente, um espaço de receitas com histórias, de tradições que evoluem com o tempo e das tendências que surpreendem, fez-nos todo o sentido ter ao nosso lado aquela que é ´A Melhor Padeira do Mundo`”, começou por dizer Catarina Simões.
Esta parceria tem o objetivo de trazer novidade e elevar a qualidade que tudo o que é apresentado. “A colaboração com Elisabete Ferreira contribui precisamente para elevar ainda mais a experiência de padaria nas lojas Continente, garantindo qualidade, sabor e frescura em cada pedaço de pão.”
Leia a entrevista completa a Elisabete Ferreira.
Como foi ser a primeira mulher a receber a distinção de Melhor Padeira do Mundo em 2024?
Foi um momento muito marcante. Senti um enorme orgulho, mas também uma grande responsabilidade. Não vi o prémio apenas como uma conquista pessoal; senti que estava a representar muitas mulheres que trabalham diariamente na padaria, muitas vezes sem grande visibilidade.
Qual o significado que teve para si e para as padeiras em Portugal?
Acho que mostrou que o talento não tem género. Recebi muitas mensagens de mulheres da área, a dizer que se sentiram representadas. Isso emocionou-me muito, porque significa que o prémio abriu portas e deu confiança a outras profissionais.
É esse o caminho que pretendo continuar a desenvolver: valorizar o pão, quem o faz e a cultura que existe à sua volta
Mais recentemente recebeu o prémio Personalidade do Ano 2026 pela AHRESP. Estava à espera? Como foi recebê-lo também?
Foi uma surpresa e uma enorme honra. Nunca trabalho a pensar em prémios; trabalho a pensar em fazer melhor todos os dias. Receber esta distinção da AHRESP teve um significado muito especial, porque veio de uma instituição que representa e conhece profundamente o setor da restauração, hotelaria e panificação. Quero também valorizar o trabalho que a AHRESP tem desenvolvido com a criação da Plataforma do Pão, que colocou a padaria e a panificação no centro da discussão sobre qualidade, inovação, formação e valorização profissional. O setor precisa deste tipo de visão e de iniciativas que dignifiquem a profissão. Por isso, não senti este prémio apenas como um reconhecimento pessoal, mas como um sinal de que a padaria portuguesa está a conquistar a atenção e o reconhecimento que merece.
Como surgiu esta parceria de ser embaixadora da padaria do Continente?
Quando falo de pão, falo de um alimento que vejo como um verdadeiro superalimento. Quando é feito com bons ingredientes, fermentação lenta e cereais de qualidade, pode ser uma excelente fonte de fibra, minerais e outros nutrientes importantes para uma alimentação equilibrada. Foi por isso que esta parceria com o Continente fez tanto sentido para mim. Partilhamos a mesma visão de que um pão de qualidade não deve ser um privilégio, mas sim algo acessível a todos. A ´Padaria de Toda a Gente` valoriza precisamente esses princípios, levando aos consumidores um pão com identidade, cuidado e qualidade.
Os pães de Elisabete Ferreira podem ser provados nas lojas Continente©
Foi fácil aceitar ser esta embaixadora da marca?
Sim. Foi uma decisão muito natural, até porque a minha relação com as lojas Continente já tem mais de 30 anos. Ao longo deste percurso, sempre senti respeito pelo meu trabalho, pela minha visão e pelos valores que defendo. Para mim, a autenticidade e a qualidade nunca são negociáveis, por isso nunca aceitaria associar-me a um projeto que não refletisse esses princípios. Nesta parceria encontrei precisamente essa sintonia: a vontade de valorizar o pão, respeitar os processos de produção e tornar um produto de qualidade acessível a mais pessoas. É isso que faz desta colaboração uma parceria genuína e com verdadeiro significado.
“Um bom pão precisa de tempo para fermentar, desenvolver aroma, textura e digestibilidade”
Que desafios traz e o que pretende desenvolver agora?
O maior desafio é estar verdadeiramente próxima da padaria e dos padeiros da padaria Continente, partilhando conhecimento, valores e processos que contribuam para elevar, todos os dias, a qualidade do pão e dignificar a profissão de padeiro. Quero ajudar a reforçar a importância do tempo, da fermentação, da escolha dos cereais e do saber-fazer que existe por detrás de cada pão. Ao mesmo tempo, acredito que é possível levar esse cuidado e essa qualidade a cada vez mais famílias, sem perder a autenticidade. É esse o caminho que pretendo continuar a desenvolver: valorizar o pão, quem o faz e a cultura que existe à sua volta.
Que novidades irá trazer em breve?
Estamos a trabalhar em novas receitas com fermentação lenta, massa mãe, cereais ancestrais e combinações nutricionalmente mais equilibradas. A ideia é oferecer mais diversidade e mais sabor.
A fermentação natural é viva e exige muito controlo. Escalar um produto artesanal sem perder qualidade requer conhecimento técnico, processos rigorosos e uma equipa muito bem preparada
Como se distinguem os pães que irá trazer?
Distinguem-se pelo tempo. Um bom pão precisa de tempo para fermentar, desenvolver aroma, textura e digestibilidade. Além disso, utilizamos ingredientes cuidadosamente selecionados e processos mais artesanais.
É fácil desenvolver um pão de massa mãe que seja depois vendido em quantidades muito grandes e por todo o país?
Não é fácil, é um enorme desafio, mas é possível com os processos e técnicas certas. A fermentação natural é viva e exige muito controlo. Escalar um produto artesanal sem perder qualidade requer conhecimento técnico, processos rigorosos e uma equipa muito bem preparada.
Como é possível garantir a qualidade deste pão?
Com método, controlo e formação. A qualidade não depende apenas da receita. Depende da farinha, da massa mãe, da fermentação, da cozedura e da consistência em todas as etapas do processo.
Temos padeiros mais qualificados, maior preocupação com a qualidade e uma recuperação das tradiçõesComo tem sido a reação das pessoas às variedades que tem trazido?
“Muito positiva. As pessoas procuram cada vez mais sabor, autenticidade e produtos que lhes façam bem. Quando provam um pão de fermentação lenta e massa mãe, normalmente percebem a diferença.”
Os portugueses estão a comer melhor pão hoje em dia?
Acredito que sim. Há mais informação e mais curiosidade. O consumidor lê rótulos, pergunta pelos ingredientes e valoriza processos mais naturais. Ainda há caminho a fazer, mas a evolução é clara.
Gostava de ver a profissão de padeiro reconhecida como uma carreira de excelência e cada vez mais atrativa para os jovens
Como é que a padaria em Portugal tem evoluído ao longo dos anos?
Evoluiu muito. Temos padeiros mais qualificados, maior preocupação com a qualidade e uma recuperação das tradições. Ao mesmo tempo, houve inovação, novas técnicas e uma valorização do pão como produto gastronómico.O foco é sempre no pão de massa mãe.

Como espera ver esta área no futuro?
Gostava de ver uma padaria mais sustentável, mais ligada aos produtores locais e à valorização dos cereais portugueses. Mas, acima de tudo, gostava de ver a profissão de padeiro reconhecida como uma carreira de excelência e cada vez mais atrativa para os jovens. A nossa presença em campeonatos internacionais de padaria é fundamental, porque mostra que esta é uma arte com enorme prestígio e impacto a nível mundial. Quando os jovens veem Portugal representado ao mais alto nível, percebem que a padaria pode ser uma profissão de futuro, de inovação e de reconhecimento internacional. Precisamos que as instituições comecem a olhar para este setor de forma estratégica. A valorização profissional, através de formação qualificada, investimento nas competências e apoio à participação internacional, pode fazer uma enorme diferença no futuro da padaria portuguesa.
“Gosto de dizer que o importante não é olhar apenas para o preço, mas para o valor. Um bom pão dura mais, é mais versátil e evita que uma parte significativa seja desperdício.”
O consumidor de pão é agora mais exigente?
Sem dúvida, e isso é muito positivo. Hoje o consumidor procura mais qualidade, conhece melhor os ingredientes e valoriza cada vez mais a fermentação natural, a origem das matérias-primas e os processos de fabrico. Mas é também importante falar da escolha de um bom pão. Muitas vezes, o pão mais barato ou menos adequado acaba por secar rapidamente, perde qualidade e acaba no lixo. Existe um enorme desperdício de pão nas casas portuguesas, e uma escolha mais consciente pode fazer a diferença, tanto na alimentação como na redução do desperdício alimentar. A exigência do consumidor obriga-nos a fazer melhor, a inovar e a manter padrões elevados. Quando o consumidor valoriza a qualidade, todo o setor cresce e ganha valor.
O que diria a alguém que nunca comeu pão de massa mãe e prefere sempre outro tipo de sugestões?
Diria apenas: experimente, mas dê-lhe tempo. Como em muitas coisas na alimentação, é a constância que nos permite conhecer verdadeiramente um produto. O pão de massa mãe tem um sabor, uma textura e uma forma de fermentação muito diferentes do pão convencional. Muitas pessoas estranham na primeira prova, mas, quando o consomem com alguma regularidade, passam a apreciar a sua complexidade, a sua conservação e a experiência que proporciona. Não é uma questão de moda; é uma forma tradicional de fazer pão que continua a fazer sentido nos dias de hoje.
Acha que este tipo de pão pode afastar as pessoas por ser mais caro do que outras variedades?
Nem sempre é mais caro quando olhamos para o custo real. O pão de longa fermentação e de massa mãe tem um processo de produção muito mais demorado e exigente, mas também tem uma conservação muito superior. Quando escolhemos um pão de qualidade, normalmente há muito menos desperdício, porque o pão mantém as suas características durante mais tempo e acaba por ser consumido na totalidade. Por isso, gosto de dizer que o importante não é olhar apenas para o preço, mas para o valor. Um bom pão dura mais, é mais versátil e evita que uma parte significativa seja desperdício. Muitas vezes, o pão aparentemente mais barato torna-se mais caro quando uma parte dele é desperdiçada.
“O consumidor começou a perceber que, por trás de um bom pão, há conhecimento, técnica e um enorme trabalho humano”
O que nunca pode faltar num bom pão?
Tempo, bons ingredientes e respeito pelo processo. O pão ensina-nos que não se pode apressar tudo.
O que a continua a fascinar no mundo da padaria?
O facto de nunca deixar de aprender. A mesma farinha comporta-se de forma diferente consoante a temperatura, a humidade ou a fermentação. É um mundo vivo, onde tradição e inovação convivem todos os dias.
Acha que hoje se valoriza mais o pão e o trabalho dos padeiros?
Sim, felizmente. Ainda não tanto quanto merecemos, mas muito mais do que há alguns anos. O consumidor começou a perceber que, por trás de um bom pão, há conhecimento, técnica e um enorme trabalho humano.
“Tal como escolhemos um vinho para determinada refeição, também podemos escolher o pão mais adequado para cada momento”
Qual é o pão que nunca se cansa de comer?
Depende muito do momento do dia e da refeição. Ao pequeno-almoço, escolho quase sempre um pão de trigo Barbela de massa mãe, porque tem uma acidez equilibrada, uma excelente textura e faz parte da minha história e das minhas raízes em Trás-os-Montes. Já para acompanhar uma refeição de peixe, prefiro um bom pão de centeio, que tem uma personalidade muito própria e harmoniza muito bem com esse tipo de pratos. Acho importante mostrar que cada pão tem o seu lugar. Tal como escolhemos um vinho para determinada refeição, também podemos escolher o pão mais adequado para cada momento.